Treefingers

dezembro 10, 2008

A faixa instrumental do álbum, odiada por muitos, amada por poucos, e dona da indiferença de outros tantos, é uma pausa, para o que vem a seguir. Treefingers é o abrigo silencioso, que o Radiohead procura, enquanto está sumindo no fim de How To Dissapear Completely — note como o desespero na voz de Thom junto com o instrumental melancólico vai sumindo gradualmente, em um encaixe perfeito com o inicio de Treefingers.

Eu a associo ao período de produção de Kid A. É a representação do que foi preciso fazer, para produzir o álbum e mostrar ao mundo quem eles eram: se isolar, para ter paz, enquanto trabalhavam na idéia que já havia nascido.

Curiosidade: entre o lançamento de Ok Computer, ao de Kid A, passaram-se três anos. Três anos tensos para o Radiohead, período em que a banda quase acabou.

Três anos, três dedos = Treefingers.


How To Disappear Completely

dezembro 10, 2008

Essa é aquela que já foi considerada por Thom Yorke, a melhor música do Radiohead. E com certeza está entre as melhores mesmo. Durante a Turnê de Ok Computer, disse ele em uma entrevista, houve um momento em que olhou para tudo que estava acontecendo e teve vontade de parar, mas um ano depois, ainda estava na mesma, e não tinha mais tempo para nada. Certo dia, Michael Stipe disse a ele que, quando se sentisse triste, depressivo, por causa de tudo que estava acontecendo, apenas fechasse os olhos e repetisse “eu não estou aqui, isto não está acontecendo”.

That there

That’s not me

I go

Where I please

I walk through walls

I float down the Liffey

I’m not here

This isn’t happening

Uma crise de identidade tomou o Radiohead. Pode parecer apenas estratégia de marketing, uma banda dizer que não espera um sucesso tão estrondoso quanto o que eles alcançaram, mas aqueles que assistiram o documentário Meeting People is Easy, costumam dizer que o sentimento do Radiohead, nesse sentido era verdadeiro. Imagino que eles queriam sucesso sim, mas não dá forma espantosa como veio recheado de cobranças e mais aquilo tudo que já citei.

Nos primeiro versos da música, temos uma visão daquilo que o Radiohead vê nele mesmo, e que viria ser a sua marca registrada: uma banda que faz o que quer. Mas quando esse mesmo Radiohead olha em volta, e vê tudo o que está acontecendo ele não se reconhece, e deseja que tudo logo termine.

I’m not here

I’m not here

In a little while

I’ll be gone

The moment’s already passed

Yeah, it’s gone

I’m not here

I’m not here

O problema é que a situação parece não ter fim. Por mais que eles desejem, por mais que supliquem pra que tudo acabe nada muda. E se antes, eles apenas desejavam o fim, agora a crise existencial é tão grande que eles não querem mais acreditar no que acontece. Luzes sobre eles, auto-falantes gritando seus nomes, comemorações, a fama os envolve, e em meio a fama o verdadeiro Radiohead, aquele que faz o que deseja, que queria sucesso sim, mas moderado, aquele que não quer se render a mídia, começa a sumir, desaparecer em meio ao caos. Entre gemidos e gritos de desespero, a voz de som vai sumindo, morrendo, como se na solidão e no silencio encontrasse alivio.

Strobe lights

And blown speakers

Fireworks

And hurricanes

I’m not here

This isn’t happening

I’m not here

I’m not here

A seguir, Treefingers.


The National Anthem

dezembro 10, 2008

The National Anthem é a representação sintetizada da já citada pressão que o Radiohead vinha sofrendo, por um trabalho novo e extraordinário. Aliás, ela poderia muito bem se chamar “o desejo nacional”, o que todos esperam. Enquanto Colin Greenwood e Phil Selway detonam no baixo e na bateria respectivamente, “ruídos”, efeitos sonoros, e um Thom Yorke meio entorpecido cantando e, em alguns momentos, cantarolando um nanana nananana, ao melhor estilo “não to nem aí”, a imagem radioheadiana da cobrança da mídia nos é mostrada em versos:

Everyone

Everyone around here

Everyone is so near

It’s holding on

It’s holding on

Todos sempre na espreita, ansiosos, colados uns aos outros, apenas esperando algo como Ok Computer. Uma marca impossível de não ser notada na musica, é influencia jazzística que a acompanha. Saxofones e trompetes tocam de forma frenética e caótica, criando a imagem de um barulho insuportável. Esses dois instrumentos, juntos com as batidas eletrônicas que cercam o hino, vão crescendo, crescendo e crescendo, até alcançar um clímax tão intenso e infernal, que me lembra os Dois Minutos de ódios, do livro 1984.

Foi o jeito de o Radiohead demonstrar como a voz da mídia chegava aos seus ouvidos: uma barulheira infernal.

Everyone

Everyone is so near

Everyone has got the fear

It’s holding on

It’s holding on

Espera causa ansiedade. Ansiedade pode gerar apreensão, e daí para o desespero é só mais um passo. Quanto mais o povo esperava, com mais medo ficava – observe o instrumental da musica, desse trecho em diante, caminhando para o clímax do caos —, e esse medo só fazia as cobranças aumentarem, deixando o Radiohead com o saco ainda mais cheio.

Assim a musica vai acabando, regredindo do caos ao silencio, ainda que um silêncio cheio de ruídos.

It’s holding on

It’s holding on

It’s holding on

A seguir, How To Dissapear Completely.



KID A

dezembro 9, 2008

Na segunda faixa do álbum, a característica eletrônica, que viria a fazer parte integral do novo som radioheadiano, começa a ficar explicito. Ruídos, batidas psicodélica e a bateria elétrica, se juntam a uma melodia lúdica, resultando na canção de ninar mais sombria já feita. Há também a voz robotizada de Thom Yorke, cantando de forma suave, e deixando a musica ainda mais sombria.

Quanto à letra, temos uma bela apologia ao Flautista de Hamelin, um dos meus contos prediletos, e uma visão do nascimento de Kid A, que seria a idéia abstrata e bicolor, de Everything in its right place.

I slip away

I slipped on a little white lie

Ponto básico. Aqui é o próprio Kid A que está cantando, e ele nos fala como surgiu na mente dos Radioheaders. Em meio ao caos que a banda vivia, depois da crise pós-ok computer, ele veio deslizando, até surgir na mente da banda, difuso e abstrato. Como uma idéia, que pouco a pouco foi tomando forma.

We’ve got heads on sticks

You’ve got ventriloquists

We’ve got heads on sticks

You’ve got ventriloquists

Se você conhece a historia do Flautista de Hamelin, vai conseguir associar bem a musica com à historia, senão aqui vai um trecho dela, extraída do Wikipédia. XD

Em 1284, a cidade de Hamelin estava sofrendo com uma infestação de ratos. Um dia, chega à cidade um homem que reivindica ser um “caçador de ratos” dizendo ter a solução para o problema. Prometeram-lhe um bom pagamento em troca dos ratos – uma moeda pela cabeça de cada um. O homem aceitou o acordo, pegou uma flauta e hipnotizou os ratos, afogando-os no Rio Weser. Apesar de obter sucesso, o povo da cidade abjurou a promessa feita recusado-se a pagar o “caçador de ratos”, afirmando que ele não havia apresentado as cabeças.

Em contexto com o álbum, o Radiohead está dizendo algo como “eu tenho aqui a inovação, que vocês, críticos/imprensa/mídia tanto queriam, mas vocês só possuem marionetes, que controlam da forma que querem. Não sei se me recompensaram, com o brilho que me deram um dia, nos tempos de Ok Computer, mesmo assim, eu trago a prova que vocês queriam, de que podia me superar”.

Assustados com o fato, é como se aqueles que os pressionaram, se reunissem para observar o nascimento desse novo Radiohead. O nascimento de Kid A.

Standing in the shadows at the end of my bed

Standing in the shadows at the end of my bed

Standing in the shadows at the end of my bed

Standing in the shadows at the end of my bed

Retomando ao Flautista de Hamelin…:

O homem deixou a cidade, mas retornou várias semanas depois e, enquanto os habitantes estavam na igreja, tocou novamente sua flauta, atraindo desta vez as crianças de Hamelin. Cento e trinta meninos e meninas seguiram-no para fora da cidade, aonde foram enfeitiçados e trancados em uma caverna. Na cidade, só ficaram seus opulentos habitantes e seus repletos celeiros e bem cheias despensas, protegidas por suas sólidas muralhas e um imenso manto de silêncio e tristeza.

Uma coisa é certa. O Radiohead sabia que não agradaria, e esperava por isso. Fazendo uma referencia, mais uma vez, ao conto, ele diz que somente ratos e crianças, aqueles que não os pressionaram tanto, de alguma forma seriam atraídos pela nova sonoridade da banda. Os demais, ficariam decepcionados. Putos da vida.

The rats and children follow me out of town

The rats and children follow me out of their homes

Come on Kids

A seguir, The National Anthem.


Everything In Its Right Place

dezembro 8, 2008

A melhor forma de prosseguir é olhar até onde você chegou. A primeira música de Kid A é totalmente sobre isso, e nela já temos contato com um Radiohead totalmente remodelado. Nada de guitarras. Nada que faça-nos pensar em rock. O piano e a voz distorcida de Thom Yorke, com o  sintetizador de Jonny Greenwood, nos elevam a uma atmosfera nova, etérea e psicodélica.

“Kid A, Kid A”, sussura Thom, antes de começar a cantar:

Everything
Everything
Everything
Everything in its right place

In its right place

In its right place

In its right place

Tudo está estabilizado. O Radiohead aqui olha pra si mesmo e diz “Ok, vamos ver como estão as coisas”. Repetindo o que eu disse ali em cima, não se pode seguir um novo caminho, sem olhar pra quem você, o que fez e imaginar o que pretende fazer daquele momento em diante. Pra mim, a idéia de que nessa primeira musica eles estão fazendo isso fica nítida aqui:

Yesterday I woke up sucking a lemon

Yesterday I woke up sucking a lemon

Yesterday I woke up sucking a lemon

Yesterday I woke up sucking a lemon

O limão é azedo. O sucesso estrondoso de Ok Computer não fez bem ao Radiohead. Logo, é simples: não a muito tempo, ainda ontem, eles sentiram o amargo gosto do sucesso e isso não foi muito bom. E é assim que eles se encontravam, com esse gosto azedo, ruim, em suas bocas. Esse era o Radiohead, até então.

Everything

Everything

Everything

Everything in its right place

In its right place

In its right place

Right place

Uma vez que eles já entendiam como estavam e aonde haviam chegado, o próximo passo é saber o que fazer como agir em seguida. Que caminho tomar.

There are two colours in my head

There are two colours in my head

Alguma coisa começa a nascer, na mente do Radiohead. Uma idéia nova, em duas cores. Algo abstrato, mas ainda assim novo. Mas o que isso significava? Que forma viria a ter? Domado por essa possibilidade de mudança, eles não escutam mais ninguém, não ouvem mais nenhuma opinião de fora. É como se a pressão que estavam sofrendo fosse, de uma vez por todas ignorada, e então tudo se voltasse para um equilíbrio. Esse equilibrio, essa ideia, é Kid A nascendo.

What, what is that you tried to say?

What, what was that you tried to say?

Tried to say

Tried to say

Tried to say

Tried to say

Everything in its right place…


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A seguir, Kid A.


Kid A – Introdução

dezembro 8, 2008

Ok Computer, terceiro álbum de estúdio do Radiohead, foi um dos principais discos lançados na segunda metade da década de 90, e é tido, ainda hoje, como mojo-cover-radioheadkida1um dos melhores álbuns de todos os tempos. As texturas, sons ambientes e as guitarras enfurecidas da banda britânica, surpreenderam o mundo e elevaram-na ao patamar das melhores bandas da historia do rock.

Criticando o mundo, e a relação homem-máquina, o álbum recebeu o Grammy de Melhor álbum Alternativo, naquele ano, 1997, e uma indicação a categoria de melhor álbum do ano.

Muitos viam no Radiohead a salvação do rock, e a cobrança por um álbum tão bom, inovador e intenso como Ok Computer passou a sondar Thom, Ed, Phil, Jonny e Colin. A pressão da midia chegava a ser maior que o sucesso da banda. Após a turnê Against Demons, foi lançado o documentário Meeting People Is Easy, que mostrava apatia da banda com a mídia e a industria fonográfica, dois EP’s e a compilação 7 Television Commercials, que reduzia videoclipes a comercias de TV. Depois disso o Radiohead desapareceu completamente e, dizem, entrou em uma depressão tão grande que quase morreu.

“1998 foi um dos pontos mais baixos da minha vida… Eu senti que estava ficando maluco. Todas as vezes em que eu pegava minha guitarra, eu só conseguia horrores”, disse Thom em uma entrevista.

Eles haviam tocado o céu, mas estavam cercados de abutres. O que fazer agora? Como eu li em blog, “o posto de maior banda do mundo era extremamente cansativo para o Radiohead”.

Com uma crise existencial profunda, uma pressão comercial tremenda, e uma obra-prima na bagagem, em 1999 o Radiohead entrou em estúdio, não apenas para trabalhar no substituto de Ok Computer, mas também buscar sua identidade. Mostrar ao mundo que eles não cometeriam o comum erro de alcançar o ponto mais alto e despencar lá de cima, e provar que podiam fazer o que quisessem. Foram esses os principais ingredientes de Kid A — que, pra mim, é melhor que Ok Computer. Buscando novas influencias, sonoridade, e “estilo” próprio, Thom e seus amigos conseguiram fazer o meu álbum predileto. XD.

kid_a_uk_10in_back

A subjetividade da primeira criança radioheadiana, que marcaria uma mudança bruta na sonoridade da banda, é tão grande que permite varias interpretações.

Mas pra mim, se em Ok Computer fazemos uma viagem em nossa sociedade, em Kid A, damos um mergulho na mente da banda, e entendemos, de uma vez por todas, o que a levou a renascer.
A seguir, Everything in Its right Place.


Álbum Conceitual é… o quê?

outubro 16, 2008

Boa pergunta!

Que diabos é um album conceitual, no fim das contas?

É bem simples explicar: geralmente, e principalmente no mundo pop, o album de um artista/grupo/banda é formado por músicas que não tem a menor ligação uma com a outra, em outras palavras, é uma série musical totalmente aleatoria, sem o menor elo, etc etc, escritas pelos artistas e colocadas no cd.

Já no album conceitual, ocorre exatamente o oposto. Aqui o artista idealiza um conceito/historia, divide em varias partes e transforma cada fragmento em uma musica. No fim, temos uma ideia percorrendo todo o album, em perfeito equilibrio. Pra ficar mais fácil, veja  o album conceitual  como um livro, e cada uma de suas faixas como um capitulo da história.

Imaginou? É exatamente isso.^^

O Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles é tido como o primeiro album conceitual, que se tem noticia, mas as opiniões sobre isso são bem divergentes.

Exemplos bons desse tipo de album são o The Dark Side of the Moon e The Wall, do Pink Floyd; Ok Computer, Kid A, do Radiohead, Viva La Vida, do Coldplay, Mellon Collie And The Infinite Sadness, do Smashing Pumpkins e o ( ) do Sigur Rós.

Agora só falta escolher com qual eu começo, hahaha.

Legal, né?


One By One

outubro 16, 2008

Olá,

Bem-vindo ao meu mais novo blog, e, aos meus amigos, juro que esse é o ultimo!

A minha idéia é fazer do  Reckoner’s meu point virtual pra postar/compartilhar, com sabe-se lá quem, já que ninguém costuma ficar fiel a meus blogs, analises musicais.

XD

Eu tenho um tipo de mania, ou hobby mesmo, de tentar entender o que artistas querem dizer com suas cançoes, melodias, albuns. Claro que, muitas vezes, e não sempre, as mensagens sao obvias, mas tentar compreender aquilo que, aparentemente, nao faz o menor sentido me fascina.

Essa minha mania’ surgiu quando eu conheci os caras do Radiohead, Pink Floyd, Coldplay (etc), e desde entao me pego analisando melodias, letras, significados e, por que não, até encartes de cd’s afim de entender o que, por exemplo, um Dark Side of The Moon, considerando obra prima do Pink Floyd, trás em seu contexto. Tem gente que acha isso perda de tempo, outros dizem que é mania de vagabundo, eu adoro.

De tanto eu falar em conceitualidade musical, e ver o ’sucesso’ que uma analise minha do ultimo cd do Coldplay, Viva La Vida or Death And All His Friends, fez em umas comunidades do Orkut, Ariel, meu melhor amigo – não a Pequena Sereia -, me disse que eu devia abrir um blog e postar minhas “viagens”.

Bom, aqui está e  se alguém um dia ler isso aqui, já sabe por que o blog nasceu.

Anyway, mergulhar, faixa-a-faixa, na subjetividade de um cd, e buscar compreender isso já me ajudou, por incrivel que pareça, muito. Mas isso é outra história.

Welcome.